Vidas e o Meu Amor de Verão

Há 2 dias esteve um calor daqueles insuportável. Noites de 28ºc sem rasto de vento. Noites em que as pessoas saiem à rua, e, exibem o seu novo tom de pele, há vermelho e dourado, infelizmente cada vez mais vermelho. Semanas cheias de dias e noites onde as ruas se enchem de veraneantes.

Saio à rua, ainda que com pouca vontade. É noite. O ar cheira a peixe grelhado, a óleos bronzeadores e a protector solar. Os artistas de rua vestem o seu melhor traje e exibem o respectivo cartaz da pedincha. Já usam fotos das moedas que pretendem, e, não menos de 0,50€ sob o pretexto de uma conversa fiada qualquer ou até de uma mensagem vinda do além com os números do euromilhões. Evolução dos tempos. As miúdas encantam-se com os palhaços que fazem balões e ficam pasmadas a ver um Sherk de verdade. Observo os transeuntes. Os mais jovens, vestidos a rigor, cheios de adereços de combinação duvidosa. Há chapeús, óculos escuros, claros, amarelos, cachecóis, botas com vestidos, vestidos bem curtos e sapatos bem altos, com salto agulha de 15cm, de verniz, de cores vivas. Constato com alguma inveja, que, o rosto das mais jovens se encontra perfeitamente pintado, de tal forma que a cabeça podia ter sido retirada de um manequim de uma loja de roupa.

As lojas estão abertas junto à avenida que me separa da praia e questiono-me se dará para o gasto. Dou a volta pela parte onde estão os bares com vista para a praia e continuo o meu passeio. Debruço-me no muro pintado a vermelho e gasto pelo sol. Olho a passadeira de madeira. Está escura. Faltam algumas lâmpadas que não foram substituídas e outras tantas vandalizadas. No parque infantil, horas antes cheio de crianças, reina o silêncio, e, apenas uma ou outra gaivota por lá se passeiam. Ao fundo consigo aperceber-me da movimentação junto ao local mais falado deste Verão, e dos outros,  no barlavento algarvio. A falta de iluminção cria sombras e transforma-o num local digno de filmes de suspense. Continuo o meu passeio. Aliás, continuamos. Empurro o carrinho enquanto oiço em inglês e português as observações comuns por serem duas. Mais à frente subimos um pedaço de rua com calçada. Há minha direita um hotel restaurado recentemente, e que, segundo sei, é o mais antigo da cidade. As miúdas adoram o espaço, parece um castelo. Apesar de ter cara lavada foi mantida a traça original. As molduras das janelas lembram uma mistura do estilo gótico com o árabe, lembrando-nos que Marrocos fica do outro lado do mar. Sigo caminho e olho de relance para as pessoas que se detêm junto à entrada de um hotel onde há um bailarico. Ali estão, coladas aos vidros, e, a observar os clientes que se encaixam aos pares para uma valsa.

Ando mais um pouco e retorno pelo mesmo caminho cheio das mesmas, e de outras, pessoas. Reparo naquele homem de tez escura, marroquino talvez, sentado num banco e com aqueles cães a pilhas à sua frente para vender. O seu rosto não me parece alegre, e o contraste com os sorrisos de quem passa é notório. Vidas. Mesmo à minha frente está um grupo de jovens, entre os 17 e os 20 anos talvez, com indumentárias de festa patrocinadas por uma dessas bebidas da moda. Estão vestidas de cinza e preto, saias bem curtas e uma espécie de chapéu a imitar um lobo com uma cauda comprida que desce pelas costas até à cintura. O tamanho reduzido das suas indumentárias é motivo de concentração de meia dúzia de rapazes que as contemplam cheios de sorrisos marotos.

Há música no ar e a cada passo há quem me tente convencer a comprar, a entrar para jantar, ou a beber uma bebida milagrosa que promete boa disposição para o resto da noite. O passeio está quase a terminar e eu já sonho com o mês de Setembro e Outubro. Julho e Agosto só me apetece fugir para de onde vieram os outros, e vou. E, quando este post for publicado já por lá estarei, de bolsos mais vazios mais de alma mais cheia. Será por pouco tempo mas sei que a terei só para mim. Por mim este Verão pode fazer as malas e ir andando para longe. Gosto mais do Verão ameno, dos 25ºc de dia e dos 18ºc à noite em que o aconchego da casaco e do lençol sabem bem.

Chego a casa. Descalço-me. Arrumo as sandálias. Lavo as mãos. Lavamos as mãos e os dentes. Apesar do calor faço o meu chá. Coloco-lhes a fralda e vão dormir. Desço as escadas e durante uns breves 10m ainda oiço os seus risos e brincadeiras que antecedem o sono. Faz-se silêncio. Toco na chávena e lembra-me que o chá ainda está muito quente. Sento-me, desfruto do meu silêncio e olho para o meu amor de Verão cheia de saudades e a pensar no próximo. Havia 3 anos que não lia. Esperei por ele. Foram 2 dias de leitura intensa num amor sem fim. Ainda que não haja amor como o primeiro, A Sombra do Vento de Carlos Ruiz Zafón, O Prisioneiro do Céu conseguiu prender-me uma vez mais como só este escritor o sabe fazer. E li a última página.  E fiquei claramente com um gosto de quero mais. Quero saber que fará Daniel Sempere agora que tem na mão um papel valioso.

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13 thoughts on “Vidas e o Meu Amor de Verão

  1. Olá Lili
    Gostei tanto do teu texto!
    E gostei muita das tuas opções. Chá porque sim, porque refresca.
    Zafón porque é muito bom. Também falei desse mesmo livro há uns tempos atrás http://panelasemdepressao.wordpress.com/2012/06/20/wrap-speddy-gonzalez-ou-o-vicio-da-leitura/#comments
    e estou como tu, nada se compara a “A Sombra do Vento”. Um bocado à semelhança do Eco. Depois de “O nome da rosa” é difícil escrever melhor.
    Boas férias.
    Guida

    • Bom dia Guida. Já fui espreitar o teu post e lembrei-me de mim a fazer o jantar e a terminar o livro, ali bem ao lado do fogão. Tenho saudades do Sempere. Estes livros arrebataram me o coração. Quero mais 😦 Não me seduzem os livros lamechas, de historias de amor doentio e irmãos separados à nascença. Sou uma criatura estranha e esquisita, e, definitivamente não é qualquer livro que me convence, e os da triologia, como lhe chamo, convenceram-me e, à semelhança do que é dito num dos livros, os livros têm alma, têm a alma de quem escreve, de quem lê… fabuloso.
      Já vi as tuas natas… aspecto delicioso. Boa semana e obrigado pela tua sempre simpática visita.

  2. Olá Lili!
    Também eu gostei muito do teu texto,foi como estar lá e assistir a todas essas situações. Acabei por descobrir que ando muito desatualizada!!!!! Não sabia da existencia das fotos com as moedas!
    Nunca li nada de Zafon e há pouco tempo é que ouço falar dos seus livros. Terminei “Um refugio para a vida” de Nicholas Sparks na terça-feira, gostei, mas não era bem aquilo que tinha vontade de ler nesta altura. Deixei-me levar um pouco pelo titulo.
    Bom descanso.
    Sónia

    • Bom dia Sónia. De volta à tasca 😦
      Pois aqui este pessoal anda muito na frente das novidades. Eu fiquei pasmada com isso, imagina uma foto onde estão 3 mais pequenas, 0.50, 1€ e 2€. Isto está lindo para esbanjar dinheiro. Já li alguns livros do Nicholas Sparks. Gosto mas é o género que mais aprecio. Experimenta Zafón, não me canso de sugerir. Começa com a sombra do vento, depois o jogo do anjo e por fim o prisioneiro do céu. Digamos que os livros têm ligação e eu fico feliz por saber que acabo um livro e contiuno com a companhia de algumas personagens. Livros que apaixonam. Boa semana

      • Bom dia Lili. Bem vinda! 🙂
        Está decidido, Zafon será uma das proximas escolhas e vou seguir a tua sugestão.
        Neste momento estou no inicio de cartas de guerra do Lobo Antunes e estou a gostar muito.
        Boa semana. Sónia

  3. Um aplauso para o este texto, com descrição esplêndida de pessoas, espaços e ambientes.
    Deixei-me levar pelas sensações e tive a impressão de ter estado aí, a assistir a essas mudanças de cenário.
    Quanto a leituras, um dos meus vícios, este verão decidi-me pelos nacionais. Já há muito que queria ler Equador e, como gostei muito, atirei-me logo de seguida, a Rio das Flores, outro livro de Miguel Sousa Tavares.
    Ao contrário de ti, continuo a suspirar para que o verão continue por muito e muito tempo e refugiu-me em sítios pouco turísticos onde possa ler e descansar, de preferência aproveitando o sol e a água salgada, sempre ao fim da tarde, como é conveniente e como eu gosto.
    Um grande beijinho para ti.
    Patrícia

    • Oláaaa Patrícia. Acho que decidiste muito bem, eu também tenho agora na mira o Equador que ando há que tempos para o ler. Infelizmente sítios pouco turísticos só a minha casa, pois tudo o resto é alvo de grandes romarias e filas. Quem me dera morar com árvores por perto e um manto de relva, uma piscina insuflável para as míudas e um bom livro para mim, e, eu, era certamente uma das pessoas mais satisfeitas do mundo.
      Até lá resta-me desesperar por um inverno que tarde em chegar. Beijinhos

  4. Olá, Lily.
    Gostei muito de passear contigo. Imagino que julho e agosto sejam realmente difíceis para quem mora no Algarve. Também detesto confusão (nem vou à praia aos domingos) e acho que faria o mesmo que tu: fugiria para norte 🙂
    Um beijo,
    Ilídia

    P.S.: Também ando a ler bastante. Esticada na rede, é mesmo a minha atividade de eleição. Neste momento, tenho três entre mãos (um de crónicas, um de poesia e um romance 🙂 Zafón nunca li. Mas depois de tanto te “ouvir” falar bem, ando com vontade.

    • Olá Ilídia. Que bom ter a tua simpática visita. Dias difíceis… acho que difíceis é pouco, são um pesadelo. Já começo a pensar que vivo num deserto banhado por água e cheios de camelos… se bem que usar o nome dos animais será um elogio. Vivo numa cidade feita de cimento e sem espaços verdes. Dá para acreditar nesta barbaridade? O único sítio que existe é um parque mal frequentado, com patos que nadam em águas verdes e de mau cheiro. Enfim, quero acreditar que um dia vou, vou e não volto 🙂

      As saudades que eu tinha de ler. Estive 3 anos sem tocar num livro, mas agora apetece lê-los a todos, ou melhor, quase todos. Ando a pensar no próximo amor, tenho Umberto Eco na mira, Miguel Sousa Tavares, e ainda O Conde de Monte Cristo. Não sou rapariga de ler romances de amores impossíveis e drama de início ao fim. Tenho uma certa alergia a livros de pessoas separadas à nascença e que passam a vida em busca uma da outra e o livro é sempre igual, sem interesse. Para mim um bom livro tem romance, tem tragédia, tem crime, e, tem que ter sobretudo muita história, muita investigação e descrição. Aconselhas algum em particular dos que tenho em mente?

      P.S. Ao descer a rua das traseiras do S. Carlos lembrei-me de ti, das tuas aulas, mas, sobretudo dos Maias, e tentei imaginar o Carlos e Ega pelas ruas da cidade.

      Beijinho e boa semana.

  5. Olá Liliana,

    Bonito texto, excelente autor !
    Já li outros livros dele, inclusivamente a “Sombra do Vento” da magnifica Barcelona mas esse ainda não, mas é sempre uma leitura muito agradável e penso fazê-lo em breve ! 🙂

    Beijinhos

    • Olá Isabel, que bom vr-te por estes lados 🙂
      Pois tens que ler, mas primeiro lê o Jogo do Anjo, é uma espécie de continuação da Sombra do Vento. Eu, que adoro os anos 20, nem sei porquê, perco-me nas descrições do Zafón e consigo viajar a uma Barcelona antiga e cheia de vida.

      Beijinhos e boa semana.

      • Liliana, 🙂

        Já me disseram que o Jogo do Anjo é mais maçudo do que a Sombra do Vento e mais entediante, mas isso também vai depender muito obviamente de cada leitor e das expectativas que se criam em redor da trama.

        A trama da Sombra do vento foi fabulosamente conseguida, tenho a sensação que ele não conseguiu igualar em mais nenhum até agora, o que é que tu achas a respeito ? 🙂

        Beijinhos

      • Pois eu acho que o Jogo do Anjo está muito bem conseguido, melhor que o Prisioneiro do Céu. Apesar de ter gostado de ambos, no Prisioneiro do Céu nota-se que falta ali um pouco da essência que caracteriza a Sombra do Vento ou O Jogo do Anjo, mas como diz o autor, um livro tem muitas almas, de quem escreve e de quem lê. Eu só quero mais e mais desta história 🙂
        Beijinhos

Sempre que Apetecer, Sem Compromissos. Até já.

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