A Descoberta e A Simplicidade de Um Pedido

Sou da geração que cresceu na rua, felizmente não tive que passar por infantários nem creches, não que seja melhor por isso, mas, para mim, sinto que pude fazer coisas mais divertidas do que passar os dias fechados entre 4 paredes. Verdade seja dita, na vila, poucos eram os que andavam em creches ou infantários. Nesse tempo havia o que hoje já há muito pouco, pessoas que mudaram gerações, que cuidaram delas, lhes deram de comer, lhes deram colo, as Avós. E, eu, tive a felicidade de poder viver a minha infância junto da minha. Afinal a comida delas é a melhor do mundo e quando chegamos da escola há sempre o lanche à nossa espera preparado com todo o carinho da avó. Nesse tempo, podia jogar ao berlinde toda a tarde. Saltar ao elástico, levar as minhas bonecas a passear, podia ir com as minhas amigas descobrir um buraco nas traseiras do adro da igreja, e, achar que era a passagem secreta para um castelo. Naquele tempo vivia cada aventura de forma tão intensa, que, excepto os cozinhados que sabia serem a brincar, tudo se encaixava perfeitamente na realidade. Nunca brinquei às princesas, preferia vestir o ar de exploradora, de arqueóloga. Munida de pás e baldes achava que podia descobrir o mundo, e, descobri, o meu mundo fantástico de aventuras de criança, onde, trepava árvores, e, coleccionava nódoas roxas de quando aprendi a andar de bicicleta. Colhi ervas e com elas fazia cuidadosamente caldo verde num fogão de plástico branco bem pequenino. Os tachinhos eram de alumínio, e, uma verdadeira preciosidade nos meus primeiros passos na cozinha. Fazia bolos de terra molhada, que, saiam perfeitinhos de uma forma plástica cheia de cores.

De certa forma sinto pena que as minhas filhas não saibam o que isso é, mas, sabem outras coisas que eu com a idade delas não fazia ideia. É bom crescer, é bom evoluir, mas, também é bom podermos fazer coisas simples com as crianças. Apesar de a praia ter as suas virtudes, continuo a achar a montanha um local fantástico para exprimir emoções e respirar ar puro.

Sempre me ensinaram que não se brinca com pedras, mas, hoje, abri excepções. Bastou que uma pegasse numa pequena pedra e descobrisse o plup que fazia ao atirá-la para a água. O que se seguiu foram gargalhadas contagiantes a cada pedra atirada para a água.  Deve ter sido dos momentos com gargalhadas mais poderosas que me lembro, só ultrapassado pelas sessões de cócegas. É tão simples as crianças serem felizes com tão pouco.

Há medida que nos vamos tornando adultos por vezes esquecemo-nos de coisas simples, tornamo-nos demasiado sérios com medo de dar uma simples gargalhada, contemos emoções, e, as crianças ensinam-nos a encontrar o meio termo, ter filhos é, de facto, uma coisa fabulosa. E, quando estamos demasiado concentrados a cozinhar há uma vozinha de fundo que diz: “eu só quero massinha”. Respondo: “massinha com quê?” e então oiço: “pode ser com fiambre?”. Claro que sim, claro que pode. Uma resposta simples de quem já sabe o que quer.

7 thoughts on “A Descoberta e A Simplicidade de Um Pedido

  1. Uma massinha simples para um simples pedido. Mas no simples mora por vezes o grandioso e o espetacular. E o brincar com elas com pequenas coisas, tão corriqueiras parece uma aventura. Que saudades da infância e das brincadeiras, na rua e sem medos.
    Beijinho.

  2. Também cresci nessa deliciosa liberdade de brincar no páteo, colher ervas e flores para brincar, perseguir carreiros de formigas, fazer bolos de lama e convidar as vizinhas para um chá no meu mini serviço. Quando olho para as crianças de hoje tenho pena que não possam ter esta experiência, que a vida de hoje já não permite. Afinal eram bastantes menos os carros que circulavam na rua e não havia o tema “pedofilia” presente ou tão presente como hoje e a vida das nossas mães, mesmo que muito ocupada e até pesada, não padecia do stress e correrias da vida moderna. mas dizes bem: têm outras coisas e sabem outras coisas que nunca tivemos, nem sabiamos e há uma coisa que se mantém inalterada: a simplicidade com que uma criança encara a vida.
    Beijinhos

  3. Também cresci a brincar com a terra. Colher flores e colocar numa garrafa no centro da mesa da minha casa de brincar improvisada por troncos caídos na mata. Saltei paredes e andava descalça em cima de pedras (pois as canadas não eram asfaltadas), e talvez por isso hoje me queijo com varizes 🙂 Mas foram tempos bons de alegria e liberdade. Esse foi um dos motivos que regressei aos Açores era o pedido constante do meu filho. Sentia essa liberdade quando vinha para cá de férias. Ainda vim a tempo. Ainda brincou e brinca 🙂
    Acredito que se tenham divertido com essas pedras 🙂 Aproveita para ensinares todas essas simples brincadeiras às tuas meninas, pois elas crescem depressa demais 🙂
    A refeição sendo ao gosto delas não podia ser melhor 🙂

    Beijinhos

  4. Este é daqueles posts de que se gosta muito pela simplicidade e profundidade do que é dito, porque foi vivido e significativo. Criar momentos significativos no dia de hoje não é fácil. Parece que aos adultos se esgotam ideias, mas se pensarmos bem basta uma poça de água para as crianças brincarem e se divertirem a saltar e a molharem-se todas, basta um passeio a pé sem destino onde se pode apreciar as plantas que despontam, os animais, mais ou menos domésticos, basta um cumprimento mais prolongado a um vizinho para se ter um dia diferente, um dia de contatos com a natureza, com as pessoas. Isto,no meu entender, é o que falta a muitas crianças e adultos dos dias de hoje.
    Nós tentamos proporcionar aos nossos dois filhos (11 e 4 anos) dias com significado. Hoje fomos para a costa, que fica já aqui a um kilómetro de casa. Estava um dia esplendoroso. Foi o primeiro banho de mar das crianças. E elas adoraram. Tiveram direito a piquenique e tudo e no fim o pai ainda trouxe das profundezas do mar salmonetes, um polvo que fez a alegria das crianças (ao brincarem com as ventosas do animal riam desalmadamente,mostrando um misto de medo e surpresa à reação natural do polvo) um caranguejo grande e um montinho de lapas e búzios. Foi um dia feliz portanto. A ver se o transformo em post amanhã.
    Um abraço.
    Patrícia

Sempre que Apetecer, Sem Compromissos. Até já.

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