No Tempo das 4 Estações


E, porque a salada de hoje tem frango salteado em azeite e alhos que foi misturado numa taça generosa de alfaces, laranja, pepino, tomate e azeitona, e, bem colorida ao jeito da estação em que nos encontramos deixo-vos com uma história sobre um tempo em que cada estação do ano tinha o seu tempo.

Lembro-me do tempo em que o ano tinha 4 estações, e, lembro-me perfeitamente de as aprender a escrever com letra maiúscula. Segundo me constou agora são com letra minúscula. Perdoem-me os experts, inventores do tão afamado Acordo Ortográfico, mas, comigo encaixa a velho ditado “Burro velho não aprende línguas”.

Na vila onde cresci a Primavera era esperada com muita ansiedade.

Em Fevereiro despontavam os raios de sol sob um céu azul lindo. Dias ainda de um Inverno quase sempre gelado onde por vezes o sol espreitava. Hoje olho para o mesmo céu e não lhe encontro aquele azul brilhante. Talvez sejam os meus olhos.

Março… Por esta altura as amendoeiras vestiam-se de branco e rosa e a vila ganhava mais um pouco de vida. Há praça chegavam as carreiras – autocarros – com turistas. Lembro-me de ouvir “La Isla Bonita” da Maddona e de não perceber patavina do que a senhora cantava mas simpatizava com ela porque sabia dizer umas palavras em português. Primavera era sinónimo de ir com a minha avó pelo caminho de ferro, já na altura desactivado, e ter visto pela primeira vez 1 ovo ainda sem casca. Um amarelo-laranja muito vivo envolto numa fina camada branca muito macia. Diga-se que a galinha tinha sido morta pouco tempo antes. Primavera era ainda sinónimo da chegada das andorinhas, eram tantas que algumas acabadas de nascer caíam dos ninhos. Ainda me lembro daqueles corpos franzinos e rosados sem penas e ovos minúsculos pelas beiras das casas.

O Verão era a momento mais esperado do ano. Não conheço os costumes de todo o interior de Portugal mas  por lá o mês de Agosto era uma festança com a chegada dos emigrantes nos seus  carros cheios de música de bailarico. Na vila os carros não eram muitos, pelo que, mal os filhos regressavam à terra havia um movimento e uma vida fora do normal. O seu regresso era tão ansiado que tinham acesso à zona central da praça e o Padre abençoava-lhes os meios de transporte.

Verão era sinónimo de vizinhas que se juntavam à porta umas das outras em amena cavaqueira. Era ir buscar água à fonte e molhar as mãos naquele enorme tanque de pedra. Era ver as senhoras sentadas em mochos – pequenos bancos de madeira – e outras em bancos desdobráveis com riscas, eu sentava-me nas escadas vermelhas da Marquinhas. Hoje penso como era possível estar ali sentada, com aquelas senhoras, num passeio que tinha como limite a estrada, e, não havia o barulho de fundo dos carros, também, não os havia.

O último dia de festa era o dia rei. O fogo preso era a estrela da festa e confesso que nunca vi esta arte em outro sítio. Para quem não conhece o fogo preso é uma construção de madeira, canas e pólvora, com formas e cores muito bonitas. O que mais me impressionava era sempre o homem na bicicleta, que, quando chegava o fogo até ele  pedalava. Mas, o momento alto era a chegada do fogo a uma espécie de pregaminho que se desenrolava e tinha a Santa Padroeira da terra.

Outono, Setembro, escola e o cheiro doce de umas lapiseiras que havia na altura. As pontas tinham um plástico branco onde estava a ponta do lápis e lembro-me que encaixavam umas nas outras. Os cadernos eram pequenos e com linhas duplas. Na capa tinha uns bonecos perfeitos, havia o menino que tocava flauta e a menina com vestes  a fazer lembrar “Uma Casa na Pradaria”. Era altura de tempo frio, de jogar ao berlinde,  fazer o magusto e beber licor de canela. Sim, licor de canela, se era alcoólico não sei nem me lembro, mas, era bom e nunca mais o bebi em lado algum.

No Inverno vinha frio, muito frio. No meu tempo, nesse tempo, roupa que ficava na corda durante a noite, estava de manhã dura que nem uma pedra e bem direitinha. Nesse tempo máquina de secar roupa era sinónimo de roupas penduradas pelas cadeiras frente à lareira para secar. Era pegar num pijama lavado e sentir o cheiro a fumo misturado com sabão de barra azul e branco. Era altura de botijas de água quente e soquetes feitos pela avó – botinhas de lã-. Tempo de matança do porco, de fumeiro, de cheiro a fumo pela casa, de cozinha com paus de madeira das vassouras penduradas no tecto com chouriças, salpicão, buchos, alheiras e chouriços pretos doces. Inverno eram dias muito pequenos, noites muito grandes que começavam às 4.30 da tarde. Nesse tempo tinha aulas das 9-12 e das 14-16 com intervalo às 10.30 até às 11 e às 4 da tarde já se começava a fazer noite.

25 anos se passaram, mais ano menos ano, desde o tempo que me lembro dos primeiros desenhos na escola primária. Tinha cadernos lisos onde a professora colocava com carimbos as estações do ano, e outras figuras, para pintar e aprender. Continuam a haver 4 estações, mas, aos meus olhos elas não existem mais. Com muita pena minha todas elas são, hoje, apenas uma doce lembrança de quando o tempo era aquilo que o tempo lhe dava e cada desenho que pintava na escola combinava na perfeição com cada estação.

P.S. Obrigado por terem lido até ao fim. Espero que tenham gostado de viajar comigo no tempo do meu tempo.


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4 thoughts on “No Tempo das 4 Estações

  1. Li e gostei imenso da tua história, por momentos viajei tambem ao meu passado e lembrei-me dos meus tempos de escola que foram iedênticos aos teus. Lembro-me de sair da escola e o tempo começar a ficar escuro, não me podia demorar pelos caminhos senão corria o risco de chegar a casa de noite.
    Como os tempos mudam, agora anoitece mais tarde no inverno, por volta das 17h30m e o cheiro a lume de lenha, esse já não se sente, só mesmo o da lareira.
    Tanta coisa que mudou, mas o importante é ter-mos essas memórias que nos enriquecem.

    Beijinhos e até à volta.

  2. Olá,
    Em 1º lugar eu é que te agradeço pelo que escreves e das belas lembranças que me trazes à ideia… leio aqui coisas que por vezes já não me lembrava e fico tão feliz de me reavivares a memória!:)
    Também vivi a minha infância com muitos momentos desses… coisas em comum?…os mochos, a chegada dos emigrantes, os magustos, as matanças e o fumeiro…mas a que mais me satisfez foi lembrar essas lapiseiras que encaixavam umas nas outras 🙂 🙂 bons e saudáveis tempos!! Somos pessoas que vivemos numa geração com “coisas” a menos mas com mais valor, o genuíno.

    A tua saladinha está mesmo deliciosa, o franguinho combina muito bem!
    Beijinhos e tem um óptimo fim de semana 🙂

  3. Mais do que da salada adorei o texto. Um verdadeiro hino às estações do ano interligado com doces memórias.
    Fascinou-me viajar pelo tempo do seu tempo.
    A minha realidade açoriana é bem diferente, mais ligada ao mar, mas como sou casada com um transmontano conheço a delícia que foi a realidade telúrica da infância dele, que é muito idêntica à sua.
    Um beijinho do tamanho do mar
    Patrícia

Sempre que Apetecer, Sem Compromissos. Até já.

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