Cheira a Arroz de Bacalhau

Nasci por entre vales e montanhas. Cresci na rua. Os carros eram poucos e eram um fenómeno dos mais abastados. O meu avô andava de mula e usava o autocarro, carreira como ele lhe chamava e como se diz por lá. Brinquei muito na rua. Tive a minha fase em que queria ser como aqueles que encontram tesouros, hoje sei-lhes o nome, arqueólogos. Na minha rua nunca passavam carros, também, não os havia. Mais ao fundo havia umas escadas em pedra redonda, daquelas bem antigas, colocadas ao acaso, mas com regra. Ao fundo dessas escadas havia uma casa de telhado vermelho, de varandas de madeira, bem ao estilo colonial. O soalho da casa era de tábuas, ressequidas pelo tempo, e a segurá-las os barrotes de madeira que a ajudavam a manter de pé. Havia umas escadas para o primeiro andar. Naquele tempo era costume forrar as escadas com passadeiras plásticas com grandes quadrados em tons de castanho e beje. Na cozinha havia uma mesa das redondas, com uma tolha cor-de-vinho e por debaixo da mesa havia sempre uma braseira, devidamente colocada no buraco que a mesa tinha e na qual se aqueciam os pés de inverno. Mas o que eu gostava era da casa-de-banho, grande e com muita luz, bem diferente da de lá de casa.

Apesar de tanto aparato era uma casa humilde, com pessoas simples. Era 1 de Abril e a minha mãe quis pregar uma partida à amiga que morava nessa casa. Eu, pequena, nos meus 7-8 anos, obedeci e fui informar a senhora que a minha mãe estava doente. Era dia das mentiras e a minha mãe explicou-me isso e eu fiquei contente de poder pregar uma partida.

Essa senhora fazia algo extraordinariamente bom, até para mim que não sou grande fã de bacalhau, fazia um arroz de bacalhau, como ninguém, ao qual juntava pedaços de batata cozida, e, para o manter quente embrulhava a panela de ferro em jornal.

Hoje fiz massa de bacalhau e soube-me melhor que nunca. Na minha curta passagem pela cozinha arrisco a dizer que foi a melhor massa que já fiz. Ficou tudo satisfeito, e, eu lembrei-me dela e do seu arroz de bacalhau.

É admirável o poder do cheiro, do sabor. Viaja-se no tempo e consegue-se ver, ouvir e sentir o passado como se fosse um presente.

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9 thoughts on “Cheira a Arroz de Bacalhau

  1. Que bela viagem no tempo… também viajei com as tuas palavras e “vi” muita coisa, que descreveste ao promenor, dentro da minha cabeça! 🙂 Uma infância feliz é a base de uma vida saudável.
    A tua massa de bacalhau ficou com um aspecto mesmo caseirinho e apetitoso! hummm …que delícia 🙂
    Beijinhos

  2. É impressionante a capacidade que a comida tem de evocar memórias, que muitas vezes estão adormecidas. Gostei imenso do teu texto e, apesar de a minha infância ter sido um pouco diferente, revi-me nessas brincadeiras de rua. E é curioso, cá também de chamava “carreiras” aos autocarros. Um beijinho

  3. Vim agradecer a visita e o comentário e encontrei um texto e um prato fantástico que também a mim me faz recordar outros tempos.
    Pelo teu comentário e pelo teu texto acho que posso concluir que temos raízes na mesma zona do pais. As festas da cidade em Bragança são o ponto alto do ano de facto, mas já não têm a graça de antigamente quando estavam espalhadas por toda a cidade.

    Como o teu blog é da wordpress e não me posso tornar seguidor vou-te adicionar à lista de “blogs recomendados” no meu blog, assim também se torna mais fácil para mim visitar-te.

    Bjs.

  4. Eu também sou do tempo das “carreiras” 🙂 Que post tão doce, não há como o sabor da nossa infância.
    E desculpa-me por andar há tanto tempo sem vir aqui ou dar notícias, tenho andado com umas terriveis dores de cabeça e estar em frente ao computador é realmente difícil. Votos de continuação de um excelente Verão em companhia nos teus tesouros.

    beijinhos e até breve.

  5. Foi uma surpresa saber que és tu! Fico mesmo muito feliz por te voltar a ter neste espaço, acredita que fazes falta e é com muito prazer que te vou voltar a acompanhar.

    Beijos.

  6. É impressionante como a comida nos faz viajar no tempo.
    O meu avô também tinha um burro que o transportava para ir às vacas e como esse burrinho era inteligente!
    Há pessoas e aromas que ficam guardadas numa gavetinha que dispertam com um simples sabor.

    Beijinhos

Sempre que Apetecer, Sem Compromissos. Até já.

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